Sexta-feira, 21 de Novembro de 2003

Ensaio/Esboço sobre um amor inacabado

Acabo de chegar de um lugar indeterminado; não o sei localizar; fica algures na minha memória, já um pouco esbatida pelo tempo; gastei muito do meu tempo a lembrar o que não deveria ter sido recordado. Mas o arrependimento não trás nada de novo, apenas revolve o velho e não deixámos de ser o que somos, apenas almas errantes neste mundo de contrastes e de negações. Somos apenas e tão somente os "dejectos" dum mundo imperfeito. Não nos foi dada a possibilidade de esboçar a nossa própria vida e assim temos de nos contentar com os constantes ensaios que fazem de nós, indeterminando a solução final.
Perdemo-nos na amálgama do tempo e da insanidade.
Já não somos quem queremos ser.
Somos apenas o que nos "dão" para ser.
Permitem-nos viver de memórias e de factos que de novo se transformam em lembranças.
Mas, lembrar para quê? Para sofrer? Para verificar que afinal de contas de nada serviu o esboço que de mim fizeram em constantes ensaios que a nada me levaram? Apenas à negação, só me levaram à negação.
Não sei quem sou. Talvez nem queira saber: Não foi para isso que aqui vim; vim a este mundo para ser feliz, disseram-me um dia; e eu, parvo, acreditei.
Vivi correndo nesse sentido; esbocei sorrisos e ensaiei risadas. Tropecei, caí mas de novo me levantava.
O horizonte estava sempre perto e me bastava estender a mão; a ajuda nunca me era negada; acreditei que o esboço que de mim fizeram em alguma coisa de bom se haveria de tornar, um dia, quando não sabia, mas haveria de me realizar.
Engano. Puro engano. Quando dei por mim estava caído, só, perdido, fendido em mil pedaços de mim, dorido de dores que não imaginava existirem.
Mesmo assim olhava em frente na expectativa de que o esboço que fizeram de mim, depois de tantos e tantos ensaios, me permitissem olhar e sorrir de novo. Fiz isso muitas vezes. E havia sempre uma mão, ali, expectante, sorrindo para mim (engano). Para que foi que me sorriram? Porque me enganaram? Porque me disseram que sim? Porque razão me arrastei até aqui?
Porquê?
Que ganhei eu?
Derrota após derrota?
Claro que ganhei muitas batalhas, claro que sorri muitas vezes, claro que dei gritos de espanto e de prazer, claro que sim, mas, para quê? Para chegar a este fim?
Para verificar que tudo o que vivi foi uma dramatização de mais uma história igual a tantas outras histórias de amor e sofrimento?
Foi para isso?
Foi para isso que me trouxeram até aqui?
Foi para verificar que "isso" não existe? E, o que é o "isso"? O "isso" é um sarcástico riso dum engano simples mas preciso; dizem-nos: Vai e sê feliz, foi para isso que aqui vieste. E eu vim, olhando, sorrindo, esboçando e ensaiando o que poderia vir a ser e a ter: um amor, o amor!
Amei e fui amado.
Quis ficar pela simples razão de ter gostado. Então amei e fui novamente amado e numa infindável sequência de vidas eu percebi que estava a ser traido pelo esboço que fizeram de mim; o ensaio não tinha tido ensaio-geral; o pano subira para a representação da vida e eu não sabia o papel.
Destruiram-me, logo ali, logo à partida.
Negaram-me a possibilidade de estudar melhor as deixas e as palavras, os tregeitos e a forma de colocar o corpo no palco da vida; o esboço havia sido mal concebido; o ensaio não havia servido de nada.

Não havia ponto.

Não havia nada. No entanto, pensei que havia tudo e de nada me servi a não ser da minha inadaptação ao papel.
Fui um mau actor

As lágrimas caiem-me agora e ninguém as vê; só eu as sinto aqui ao meu redor; os olhos se me toldam numa profunda mágoa e a tristeza me invade.

Quis amar e ser amado.

E, sou-o!

Para quê?

Onde é que ele está? Aqui, ao meu lado? Ali, depois daquela esquina? Depois, um pouco mais para além do horizonte? Ou a seguir àquele arco-íris colorido de vida mas que nada mais me traz para além dessas mesmas cores.

Isto não é um grito.

É para dizer que não me contratem mais; não há esboço e ensaio que cheguem para me reconstruirem de novo; a "argamassa" foi totalmente utilizada quando havia um sorriso, quando havia riso e olhos brilhantes.

Já não sei o papel de cor e já não consigo ler.

No entanto, o amor não precisa de esboços nem de ensaios; no entanto, o amor não precisa de saber o papel, nem de ponto, nem de palco; o amor precisa de actor, de alguém que grite que está vivo, que ainda não perdeu a única "coisa" que tem para dar e isso está ainda dentro do meu coração, ainda pulsa e me diz que é, que existe, que sente, que vibra.

Grito, no meio de uma lágrima escorrendo sobre um sorriso, que por muitos esboços e ensaios, eu ainda o sinto e que esse amor (latente, vivo) não acabará nunca, morrerá comigo, levá-lo-ei para onde eu for, será presa de mim mas não estará preso em mim, será livre de ser o que tiver de ser, será o advir.

Porém, mesmo inacabado, ele não é meu nem é amado, é puramente a ti e unicamente a ti, dado!
indeterminado por quim às 22:42

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13 comentários:
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Para quem me envia um sorriso, merece também o meu. O faço aqui e agora.
De Anónimo a 20 de Fevereiro de 2004 às 17:18
Sorrio.
De criola a 19 de Dezembro de 2003 às 14:50
"Não havia nada. No entanto, pensei que havia tudo e de nada me servi a não ser da minha inadaptação ao papel.
Fui um mau actor"


Havia, sim. Vou contar-te um segredo: foi essa inadaptação ao papel que te fez amado. Isso e de nada te teres servido. Por isto e por aquilo serás amado para todo o sempre...
De as1160307 a 12 de Dezembro de 2003 às 22:42
Resposta de retórica a amok: pode-se amar sem posse! sem exigir! não se pode obrigar o outro a sentir mesmo! e se for para além das tuas forças, amas e pronto, não se explica, não tem razão, pois elas não existem! não se escolhe de quem se gosta! gosta-se! tão simples quanto isso! Porquê complicar, o que é tão simples!

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