Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2003

A vida que eu levo

Quase gosto da vida que levo. Não foi fácil habituar-me a mim. Tive de me desfazer das coisas mais preciosas, entre elas de ti. Sim, meu amor, tive de escolher um caminho mais fácil. O dinheiro também tem a sua poesia. E tenho tido sorte.
Deixei para trás a obrigação de mudar o mundo. Já cometi corrupções. Só ainda sinto dificuldade em mentir, mas também aqui vejo melhoras. Trata-se só de deformar ligeiramente o que vai acontecendo, não de inventar tudo de novo. Tenho mais alguns anos diante de mim e depois quero acabar de repente. Não sei se valeu a pena mas também não me pergunto se valeu a pena. Há muitas coisas assim.
Não é desistir, é só não dar demasiada importância a coisas que não a têm. A vida é uma delas. Ganha um valor particular quando deixamos de a encarar como o centro de tudo. É só por acaso que gostamos das flores e do mar. E, claro, que é um bom acaso. Mas mais do que isso não.
Quase gosto da vida que tenho. Quando a quis toda não gostava de mim. Agora há dias em que aceito que o tempo passe por mim e me leve para onde só ele sabe. Não entendo como nunca houve uma religião que adorasse o tempo. Será possível imaginar algo de mais elementar e poderoso? Que com ele não se possa falar não me parece um defeito. Há coisas que, de qualquer modo, não se pode falar.
Vivo sozinho. Passam pessoas, mas nunca ficam por muito tempo. A partir de certa altura intrometem-se tédios por entre as frases e não sabemos continuar. Não insisto. Há muitas pessoas. Não vale ter medo. Há muito que o amor mostrou ser um fracasso. No dia seguinte, no escritório, esperam-me problemas por resolver e decisões que valem dinheiro. Não posso sofrer.
Claro que por vezes me sinto triste como toda a gente. Mas é uma tristeza doce, como um descanso. E como não espero nada, não faço nada. De uma maneira ou de outra também acabarei por adormecer esta noite.
Tenho um filho que cresce longe de mim e que ainda não sabe quem sou. Quis que fosse assim e não me arrependo. Não me julgo bom exemplo. Tenho um seguro de vida por morte violenta em seu favor que me poupa uma inquietação e lhe lega uma fortuna. Do resto não sou responsável. A biologia é uma ciência quase exacta e a natureza tem a inteligência das pedras.
Estudei durante muitos anos sem qualquer interesse prático. Os livros pareciam-me mais interessantes do que qualquer viagem. Escolhia-os ao acaso. Mas o que se fica a saber não nos torna mais lúcidos. Agora quase preferia não os ter lido. O saber transformas as coisas em nada, ou, pelo menos, arruma-as numa gaveta escura e triste da memória que é sempre uma deusa nostálgica.
Durante algum tempo tentei distrair-me. Cometi crimes contra a moral. Abusei do meu corpo sem qualquer respeito. Não fui feliz nem fiquei satisfeito. As raparigas de que gostei não queriam de mim o que eu queria delas e há mal-entendidos que não convém alimentar. Foi assim que fiquei sozinho. A sério que tentei. Talvez da maneira errada. Agora, mesmo que quisesse recomeçar não tinha tempo. O tempo não mostra qualquer compaixão. E houve alegrias que bastassem. É justo assim.
Quase gosto da vida que tenho. Sou conhecido nalguns restaurantes, o que não significa que me sirvam melhor, mas é sempre bom ser reconhecido. Raramente saio à noite, mas quando o faço acabo sempre por encontrar alguém que ainda se lembra de mim e quando volto a casa tenho comprimidos que fazem dormir. Por vezes durmo com uma rapariga e faço o que se deve fazer e o prazer vem e passa como um alívio. Não espero encontrar ninguém, a minha melancolia é-me suficientemente querida. Não tenho saudades de pessoas, só de sítios e de coisas. Em particular há um frigorífico que guardo zelosamente na memória. Ainda subsiste algures porque a matéria é a única coisa que resiste.
De que gosto? De literatura, whisky escocês e de adormecer logo. O trabalho é um rentável entretém que me ocupa as horas mortas. Vejo os filmes em casa, de todas as séries. Incomodam-me os barulhos das pessoas sentadas ao meu lado e gosto de rever as cenas mais macabras. Por isso vivo sozinho. Quando preciso, conheço um massagista que é negro e silencioso como a noite. E de inverno nado. A minha mulher a dias vem todos os dias quer esteja ou não constipado. Se fosse mais bonita e menos surda casava com ela sem qualquer preconceito. Já julguei ser um génio. Agora acho-me um mero mortal desencontrado. Vivo, é já o bastante. Não vou a nenhum lado, mas isso já tu sabias.
Sim, meu amor, é esta a vida que levo. E raramente penso em ti como agora. Não te arrependas de nada. Por hoje já bebi o bastante. À tua saúde.

from:

Pedro Paixão,
A noiva judia


(Altero algumas particularidades e temporalidades e subscrevo este texto)
indeterminado por quim às 21:05

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3 comentários:
De criola a 19 de Dezembro de 2003 às 11:36
"Tinhas razão,meu amor, não te amo!

Sonhei amar-te e preeencher-te vazios, falhei! Não te amo. Imaginei o amor querendo dar-te a ternura que não te sentia, falhei! Não te amo. Acreditei poder afagar-te a alma, falhei! Não te amo. Pretendi partilhar contigo um tempo e um espaço só "nosso" e o "nós" não se construiu, falhei! Não te amo. Quis beber em ti a vida que apenas vi através da redoma por onde sempre me olhaste, falhei! Não te amo. Aprendi contigo a sentir com a alma, mas falhei não conseguindo afagar a tua! Não, não te amo.

Tens razão, meu amor, não era amor por ti. Era imaginação. Imaginei o amor quando queria amar-te. Inventei o amor quando tive medo que me ferisses. Embriaguei-me de amor imaginado quando o que eu queria era partilhar, chorar, rir, acalmar, olhar, tocar, sentir, mas falhei! Não te amo.

Mas, então, meu amor diz-me!
Porque te sinto a falta? Porque me magoa onde não sei dizer, mas magoa!? Fere-me tanto esta ausência feita de silêncio e vazio; ferem-me as portas fechadas; fere-me a imaginação que se esgotou; ferem-me as máscaras que invento nos outros para não te perder na memória que me trai.

Tens razão, meu amor, não te amei. Inventei-te e não te toquei! Não te amo.

Mas...

Amar-te-ei para sempre!

E no entanto...

Foste tu que recusaste o amor!

E no entanto...

O Espaço está "lá" por preencher! E o Tempo por viver!"

(nota: os tempos dos verbos, não concordantes, é propositado...)


"E se o teu amor sobrar//
E outro destino não tiver,//
Podes por mim chamar!//
Irei! Venha eu de onde vier!" D...


De Paula a 18 de Dezembro de 2003 às 23:30
...
Mas, na cidade,
ninguém ouve o pregão.
Dos céus não chega salvação ou siso,
as divindades dormem o sono justo.
E eu, que fui feita para a imagem,
emparedada estou no coração.
Duas vertigens me tomam,
duas voragens - vorazes emoções:
de um lado, a paixão do pensamento,
do outro, o pensamento da paixão.



Podem
dois abismos
co-existir
no mesmo espaço,
em Vão?

Paula * 21/10/97

...
De eu a 18 de Dezembro de 2003 às 22:18
Que susto. O texto fazia lembrar-me algo familiar mas só quando cheguei ao fim percebi porquê.Que susto, meu amor.

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