Terça-feira, 13 de Janeiro de 2004

Não tenho sono.

Não tenho sono. Olho o tecto do quarto. Não está totalmente às escuras; uma claridade que vem do exterior permite ver os contornos das paredes e até alguns defeitos da pintura. É um quarto antigo numa pensão antiga numa rua antiga de uma cidade antiga. Sinto-me velho no meio de tanta idade.
Não tenho sono. E os olhos não me ardem. Coloco as mãos debaixo da minha cabeça e reparo que preciso de cortar o cabelo; está comprido e já faz um manto na zona do pescoço. Amanhã talvez o vá cortar.
Mas a garganta está seca. Estendo a mão para o lado e procuro a garrafa que lá havia deixado quando entrei no quarto para me deitar. Que horas seriam? Olhei para o lado à procura do meu relógio mas não estava em minha casa e ali não havia um na mesa de cabeceira; em vez da garrafa deito a mão ao telemóvel; olho o visor e com a luz do mesmo vejo que são 3 e meia da manhã.
E se eu lhe telefonasse agora? Ela estaria a dormir ou nos braços de outro homem? E, que me importa? Que tenho eu a ver com isso? Será ela “presa” de mim? Não pode fazer o que lhe der na real gana?
Não sei. A garganta pede-me líquido e desta vez a garrafa vem até à minha boca; elevo um pouco a cabeça e bebe uns golos de seguida daquele gin maldito que me vai destruindo o corpo e a alma.
Um leve calor desceu da garganta até à boca do estômago e senti uma espécie de conforto quente e doloroso. Nestas alturas não adianta abanar com a cabeça como se vê nos filmes; ainda é pior e a agonia pode surgir.
E se eu lhe telefonasse agora? Que horas são? Quatro menos vinte. Não, agora é estupidez da minha parte. Que diria ela? Mandar-me-ia àquela banda? Ou a sua voz doce e quente adoçaria o meu azedume? Só mesmo tentando. Não, não vou ligar.
O coração começa a bater com mais força e a cabeça começa também a latejar.
Que faço aqui? Não deveria ter ficado ao lado dela? Ou foi ela que me mandou embora? Estou confuso e já não sei pensar. Se calhar fui eu que vim sem me despedir; faço isso muitas vezes só para que ela não veja o meu estado.
Dói-me a alma. Como me pode doer a alma se não a tenho? Ou terei?
E se eu lhe telefonasse? Não consigo tomar uma decisão. Opto por mais uns goles de álcool que, pelo menos, me dão o conforto da dor peito abaixo.
É neste momento que sinto a agonia. Tenho de parar de beber. Como?
Vou-lhe telefonar. Não, não vou. Amanhã ligo e peço-lhe desculpa.
Mas, peço-lhe desculpa de quê? Que foi que eu fiz de errado?
Porque é que ela não me quer?
Porque me destrói assim mais do que a própria bebida?
Que horas são? Quatro e cinco. Os olhos começam a arder e pouso a garrafa; ainda a consegui pousar sem ela tombar no tapete como é costume; seria aborrecido mesmo naquele quarto antigo de uma pensão antiga de uma rua antiga de uma cidade antiga mas não tão velha como este farrapo velho em que me transformei.
Que roupas novas posso vestir?
Acho que vou conseguir dormir agora. A cabeça pesa-me e os olhos já se fecham sem que seja preciso forçar as pálpebras.
Que a noite me embale nestas trevas que me cercam e das quais não consigo fugir.
Amanhã telefono-lhe.
É, amanhã.
Amanhã preciso de comprar mais uma garrafa.
indeterminado por quim às 21:55

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16 comentários:
De inde a 27 de Janeiro de 2004 às 14:26
Esqueci-me de te dizer que não me escondo atrás dos meus medos; eu posso ser o "medo" mas não estou escondido; assumo-o mas nunca incompleto nem incompletamente.
De inde a 27 de Janeiro de 2004 às 11:43
Uma "indecisão permanente" é muito pior que uma "indeterminação". Porém, na verdade, sou completo. Obrigado pelo voto. Para ti, todo o bem do mundo. Bj
De indecisaopermanente a 26 de Janeiro de 2004 às 23:32
Só não consigo concordar com essa forma de te esconderes atrás dos teus medos, indeterminado?
Não te sentes incompleto, assim?
Não te parece que te devias expor mais?
E se ela se está a sentir como tu?!
Indecisa, reticente, temerosa,
ou até culpada, não se sabe...
Por vezes, as circunstâncias que rodeiam as pessoas não lhes permitem decidir facilmente (já estás mesmo a perceber o porquê do meu nome, não é?) Beijos. Desejo-te toda a sorte que quero para mim.
De M&M a 17 de Janeiro de 2004 às 15:31
to indeterminado: "Frémito Do Meu Corpo " / Frémito do meu corpo a procurar-te. / Febre das tuas mãos na minha pele / Que cheira a âmbar, a baunilha e a mel, / Doido anseio dos meus braços a abraçar-te, // Olhos buscando os teus por toda a parte, / Sede de beijos, amargor de fel. / Estonteante fome, áspera e cruel, / Que nada existe que a mitigue e farte! // E vejo-te tão longe! Sinto a tua alma / junto da minha, uma lagoa calma, / A dizer-me, a cantar que me não amas... // E o meu coração que tu não sentes / Vai boiando ao acaso das correntes, / Esquife negro sobre um mar de chamas. / de Florbela Espanca
De amora_silvestre a 16 de Janeiro de 2004 às 00:02
E, onde fica o tudo? E, onde fica o nada? Qual deles se escolhe? Enviado por indeterminado em janeiro 14, 2004 11:02 AM

***

...pergunta capciosa, essa!:-»
De Raposa a 15 de Janeiro de 2004 às 20:51
to indeterminado como propósito do seu texto envio mais um: "Desejo" / Dá-me o que procuro / ou não almejo / eu quero-te lentamente / ou abruptamente / a escorregar pelas vertentes / do meu mais forte desejo... / Eu quero-te, artéria / e raiz / do naufrágio que fiz / de mim / no temporal do teu corpo / gritando que sim. / de Jorge Arrimar
De indeterminado a 15 de Janeiro de 2004 às 10:40
a Ondas disse tudo: tudo muito confuso.
Obrigado pelas v/ palavras.
De Ondas a 14 de Janeiro de 2004 às 22:52
Um bocado confuso, Pantera.
De PanteraNegra a 14 de Janeiro de 2004 às 22:39
to indeterminado: Acrescento, hipoteticamente falando, que ela supostamente não sabendo, provavelmente desconfiando, o poderá ter supostamente rejeitado-o por isso mesmo! E você presentemente sofre por esses mesmos actos, vivendo uma situação supostamente irreversível, que o atormenta na sua dúvida crescente!
De PanteraNegra a 14 de Janeiro de 2004 às 22:10
To indeterminado: "Quem vai saber? Ela? Eu?" Francamente! Você com certeza deveria mais do que ninguém! Ou mesmo que tivesse dúvidas..., ou não quisesse admitir... ela supostamente é que não sabe!!!

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