Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2004

Quereres

"O quereres"

Onde queres revólver sou coqueiro,
onde queres dinheiro sou paixão
Onde queres descanso sou desejo,
e onde sou só desejo queres não
E onde não queres nada, nada falta,
e onde voas bem alta eu sou o chão
E onde pisas no chão minha alma salta,
e ganha liberdade na amplidão

Onde queres família sou maluco,
e onde queres romântico, burguês
Onde queres Leblon sou Pernambuco,
e onde queres eunuco, garanhão
E onde queres o sim e o não, talvez,
onde vês eu não vislumbro razão
Onde queres o lobo eu sou o irmão,
e onde queres cowboy eu sou chinês

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres o ato eu sou o espírito,
e onde queres ternura eu sou tesão
Onde queres o livre decassílabo,
e onde buscas o anjo eu sou mulher
Onde queres prazer sou o que dói,
e onde queres tortura, mansidão
Onde queres o lar, revolução,
e onde queres bandido eu sou o herói

Eu queria querer-te e amar o amor,
construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação,
tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés,
e vê só que cilada o amor me armou
E te quero e não queres como sou,
não te quero e não queres como és

Ah, bruta flor do querer, ah, bruta flor, bruta flor

Onde queres comício, flipper vídeo,
e onde queres romance, rock'n roll
Onde queres a lua eu sou o sol,
onde a pura natura, o inceticídeo
E onde queres mistério eu sou a luz,
onde queres um canto, o mundo inteiro
Onde queres quaresma, fevereiro,
e onde queres coqueiro eu sou obus

O quereres e o estares sempre a fim do que em mim é de mim tão desigual
Faz-me querer-te bem, querer-te mal, bem a ti, mal ao quereres assim
Infinitivamente pessoal, e eu querendo querer-te sem ter fim
E querendo te aprender o total do querer que há e do que não há em mim

from Caetano Veloso

(enviado por Raposa)
indeterminado por quim às 19:37

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8 comentários:
De inde a 27 de Janeiro de 2004 às 14:23
Há pessoas diversas, na diversidade, mas que se completam; há pessoas incompletas; há pessoas completas; na verdade, pode haver indeterminação mas nunca haverá desagregação; serei sempre um ser completo, isso podes crer. Bj
De amora_silvestre a 26 de Janeiro de 2004 às 23:40
Quem disse...?
Quem disse
que esta ausência te devia?

Quem pensou
que esta denúncia se enganava?

Que um dia era pior
que outro dia
Que à noite era melhor
porque sonhava?

Quem disse
que esta dor te pertencia?

Quem pensou que este amor
me perturbava?

Que o longe era mais perto
se fugias
Que o dentro era mais longe
porque estavas?

Quem disse
que este ardor te evidência?

Quem pensou que esta pena
me cansava?

Que calar era pior
se te despia
Que gritar era pior
se te largava?

Quem disse
que esta paixão me curaria?

Quem pensou
que esta loucura me passava?

Que deixar-te era paz
porque corria
Que querer-te era mau
porque te amava?

Quem disse
que esta paixão te espantaria?

Quem pensou
que esta saudade me rasgava?

Que tudo era diferente
se te via
Que o pior era saber
que aqui não estavas?

Quem disse
que esta ternura te devia?

Quem pensou que este saber
se enganava?

Neste langor crescente
que crescia
Neste entender de nós
que cintilava?

Maria Teresa Horta
De indecisaopersistente a 26 de Janeiro de 2004 às 23:27
Na realidade, também acredito que temos a resposta, para cada situação, dentro de nós mesmos.
Contudo, por vezes, não é fácil admiti-la e/ou assumi-la.
Acredito que existem pessoas que se completam e também acredito em pessoas completas, percebes?
De inde a 24 de Janeiro de 2004 às 18:49
Quem sou eu, Matos, para saber o porquê das coisas?! Podes desabafar sempre que queiras mas a resposta está sempre dentro de nós. A maior parte das vezes não sabemos procurar.
De Matos a 24 de Janeiro de 2004 às 17:43
to indeterminado: Com um caneco, meu , mas este poema.... revolveu o meu passado! o amor que em tempos vivi, meu... era assim uma contradição! Eu e ela, dificilmente estavamos em sintonia, meu! Se nos completavamos, então porque não estamos juntos? Porquê?!!! Tem alguma lógica, meu? Eh pá desculpa lá o desabafo, meu! Mas queria perceber!
De inde a 24 de Janeiro de 2004 às 16:05
Tudo só se consegue complementar no seu próprio contrário; nada subsiste ou existe sem o seu lado oposto; o espelho de cada coisa. O poema, na verdade, será eterno.
De Antigona a 24 de Janeiro de 2004 às 00:45
...a eterna dualidade q complementa...ou conflitua...q me perde...ou me ganha...

...eterno,o poema, em qq dos casos...
De M&M a 23 de Janeiro de 2004 às 20:54
Lindo, deveras sublime! Parabéns Raposa pela sublime escolha! To indeterminado - E porque não!? Mais um! Teu pecado... /Senhor buscai em meu corpo teu desejo louco,/sou mulher não sou santa a ti abro meu manto/e se beberes na bruma da manhã desse prazer que não é pouco,/deitarei meu corpo em teu leito te causando espanto.//
Em desalento, mesmo distante do legado em jeito,/faça de meu corpo tua moradia como febre em estadia,/lânguida, em minha pele com teus delírios me deito/e de belo agrado te aninho em meu pulsante peito.//Sou teu pecado não sejas homem orgulhoso,/na cama tuas vontades recebo como tua melhor criatura/e pecai...muito, por prazer não perdes a postura.//Faça da carne a música como escultura bêbada/e do poema um rio solto em direção ao revolto mar,/
solte o leme da escuna, naufrague nas ondas desse lindo pecar./compilado e alterado dum poema original "Desejos" de Douglas Mondo

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