Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2004

O Amor



O amor, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente
Cala: parece esquecer

Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
Pr'a saber que a estão a amar!

Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!

Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

de

Fernando Pessoa

(enviado por Beija-Flor)
indeterminado por quim às 17:28

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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2004

Perdi as palavras.

Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade; não lhe encontro identidade; não sei onde estou. Apenas vou. Saí há pouco de mais um Bar. Que bebi desta vez? Não sei mas também não interessa. O telemóvel continua mudo e nem uma mensagem tem e eu não tenho tempo para escrever; só tenho tempo para esquecer e também penso que já não sei o que dizer. Procuro as palavras mas parece que as perdi.
Perdi as palavras; ando atrás delas; perderam-se no sótão da minha memória e a chave do baú há muito que já lá não mora.
Busco incessantemente as letras para compor palavras mas não as encontro e desisto; mas, desisto de quê? Não sei. Desisto. Também se vive para desistir; não vivemos somente para insistir.
Mas as letras e as palavras são fugidias, escorregadias, lembram momentos que já não encontro; são perdas deixadas (ou deitadas?) ao vento, lamento.
Cruzo-me com as pessoas e sinto-lhes o odor; interessante, mesmo com um pouco mais de álcool, eu consigo sentir o cheiro: sinto os perfumes, a transpiração, um cheiro a urina naquela esquina, o cheiro a fritos que vem daquele restaurante rasca; um pequeno aroma a rosas naquele varandim misturado com o perfume do tabaco.
Ouço também os ruídos: os carros, as motorizadas, as conversas mudas, as tosses, o grito, o berro, a sirene do carro da polícia, a mulher que chama um cliente ali à frente.
Mas somente vejo os meus pés caminhando no piso molhado da última chuva que caiu. O sol fugiu cedo, deitou-se ainda ia o dia a meio; deixou-me só.
Já não sei onde deixei o carro. Mas, para que o procuro se sei de antemão que ainda vou parar num reles lugar para beber mais um gole?
Sinto-me mole. Sem forças e empurro as pernas para que o corpo não fique parado. Está frio neste lado de mim. Não sei como está o tempo desse lado, excepto que de vez em quando algumas gotas de chuva me vão molhando.
Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade e continuo a não lhe encontrar a sua identidade. Onde estou? Que faço aqui? Para onde vou?
Afinal, quem sou?
Será que ela ainda se lembra do que fui?
indeterminado por quim às 19:05

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