Sábado, 8 de Maio de 2004

Ponto sem retorno

Estranha veleidade
A desta espécie minha
Que por ter actividade pensante
Acha que é a mais importante
E por isso a dominante.
Que por conceber ciência
E envaidecer-se de tecnologia
Se ache superior por fazer aviões,
Às gaivotas
Sobreviventes,
Sem terem super mercados,
Que voam naturalmente
Sem necessidade de equações.
Estranho julgamento de superioridade,
Que fruto da necessidade
Tenha adquirido conhecimentos
E construído automóveis e telemóveis,
Quando qualquer golfinho
Espontaneamente percorre longas distâncias
E mesmo nestas comunica naturalmente,
Sem que para tal
Tenha perdido o encanto
De brincar no seu meio ambiente.
Estranha veleidade a desta vaidade
Vestida de peles de animais
Lontras, raposas, cobras, crocodilos, tigres e tantos mais
Quando é neles que tal riqueza nasce
Beleza única e diversa,
Como seus envolvimentos naturais,
Devastados por nós, os superiores,
Para fazer-se nossas vivências artificiais.
Que julga maior sua beleza e riqueza
Por ter adornos de oiro,
Que a riqueza natural
Que é a beleza do próprio metal .
Que por ter-se lições de canto
Se julga superar o encanto
Do natural canto dos rouxinóis.
Que por pintar-se o pôr do sol
Somos mais que o próprio Sol.
Que por usar palavras
Somos maiores pelo seu uso
Que por essa predisposição
Dos sentires
Com que a Natureza nos dotou.
Tanta vaidade de dominar e dar pontapés na bola
Que não se vê uma bola maior
A que todos pertencemos.
E todas as tácticas e estratégias
Que na nossa mente planeemos
Para nos vangloriarmos vencedores,
Essa outra bola gira ao sabor
Doutros comandos que,
Graças à Vida , não comandamos.
E basta uma revolta maior da sua natureza,
Chamamos-lhes catástrofes,
Quando nossa maior catástrofe somos nós,
Para desmoronar a bestial
Economia mundial...
Pelos conhecimentos
Com que fazemos satélites , sondas e foguetões
Em busca de perceber a beleza,
Achamo-nos maiores que a própria beleza
Que buscamos compreender
no bailado cósmico das galáxias de estrelas,
Sem problemas de imponderabilidade.
Estranha vaidade
Que por vasculharmos
Os labirintos em busca
Da origem da actividade pensante,
Nos julguemos maiores por tê-la
que a sua própria origem,
E que a lava circulante
Dos labirínticos interiores da Terra
pensando-nos mais fortes
que os terramotos, furacões, vulcões ,
como se fossemos dominadores do mar,
por nele termos barcos a navegar.
Que por cindirmos o átomo
Pensamo-nos superiores às forças
Do átomo que cindimos.
É tamanha a vaidade
Com que pensamos nossa superioridade,
Que achamos que podemos testar
Nossa pertença à Natureza
Em destruição até à exaustão,
Como se sendo destruidores
Nos pensemos os criadores
capazes de destruir
a criação que nos criou.
Estranha vaidade
A que tudo o que se desconhece
se rotula de estranho
ou então sobrenatural,
acima ou fora da Natureza,
quando é essa mesma vaidade
a pensar com certezas
que Natureza domina
e dela já tudo conhece
do que ela ainda não deixou compreender.
Só não se estranha
e se luta por ultrapassar
o que de destruição
dessa vaidade já se conhece?
Estranha vaidade
Que faz com que ainda,
Na natural busca do que nos é profundo,
Se agarre em desespero
com unhas e dentes
A imitações humanas de pureza,
Geradas sem que espermatozóide
Se tenha fundido ao óvulo,
Fora das sensações corporais
E estas julgadas como pecados originais,
Para que não nos sintamos naturais,
Gratos pelo corpo,
Pelo desejo, pelo prazer,
Pela fêmea, pelo macho,
Pelo que somos e fomos de vida em evolução,
lado cruel lado fascinante ,
E não martirizados pelo que não somos,
Para que, mais felizes , possamos crescer.
Será veleidade
Outra qualquer face
Da mesma vaidade ,
Que ao sentir-me singular
Na dualidade,
Eu queira gritar esta minha rebelião,
Pelo que não se quer ser solução?
Eu sei só tu , Vida, és minha resolução
No que em mim é irresolúvel
Neste ponto sem retorno,
Sem saber mais como existir
Neste faz de conta de vida.
Não me deixes mais
Aqui neste espaço-tempo
Presa e livre sem solução
Nesta imitação sufocante de Ti,
Na vaidade e crueldade de não sermos
Negando a beleza que somos,
Que mais não consigo aguentar.
Deixa-me ser só minha parte
Da água dos rios , do mar
E da foz em que todas se vão misturar.
Minha parte do ar
Onde os pássaros vão migrar.
Minha parte
Da fluidez da lava.
Minha parte da seiva das árvores
Da beleza das flores
E do alimento dos frutos .
Minha parte do riso
De criança de braços abertos ao Sol.



(from: Eureka Cruz)
indeterminado por quim às 11:59

link do post | indetermine | favorito
3 comentários:
De Ltus a 11 de Maio de 2004 às 14:48
Soberbo!!! beijos ***
De inde a 9 de Maio de 2004 às 14:08
Poema de E. Cruz. :) *
De Aran_aran a 9 de Maio de 2004 às 11:45
Quanta verdade neste belo poema! Bonita escolha Beijos doces

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.últimas indeterminações

. eu

. floresta

. Saudade

. Aniversário

. Amar como o vento

. Gostoso

. Solidão

. Gostos

. Não sou aquário de signo,...

. pormenor

.torres do tombo

. Outubro 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

. Novembro 2003

blogs SAPO

.subscrever feeds