Sábado, 29 de Novembro de 2003

Tenho frio, tenho mesmo muito frio

Tenho frio, tenho mesmo muito frio; sinto um arrepio dentro de mim que me faz encolher a alma; dobro-me sobre mim mesmo e procuro a razão do frio que sinto; sinto-me cheio de um vazio que se instala no meu cérebro e deste passa para o meu ser. Sinto-me entorpecer e as pernas dobram-se e enregelam. O frio que sinto faz-me tremer; não vejo sol dentro de mim e a lua passou já muito ao largo e não deixou rastos. As estrelas estão longe e não me iluminam o suficiente para aquecer o meu coração. É tudo em vão. Todo o esforço que faço para me manter à superfície ainda me magoa mais porque as forças me abandonam e o corpo rejeita energias que gasto nesta viagem. E é apenas a minha imagem. Mas olho para lá e não vejo nada que me faça regressar. E desejo cada vez mais sair, fugir mesmo sem saber para onde ir; não é dilema não saber o que aí vem; sabe-se que se está a ir nessa direcção e deixamo-nos ir como folha perdida nas águas turbulentas de uma sarjeta suja de pó e vazia também de tudo.
Deito-me dentro de mim e adormeço no meu sonho sem dormir; é um sonho acordado de tão cansado que nem o sono sossega e não me dá trégua.
tenho frio, tenho muito frio; sinto um arrepio de novo e mais uma vez me encolho e olho para dentro do copo que tenho na mão; é um copo vazio como eu e também está frio; peço a alguém que o encha de novo e dizem-me que não, que já bebi demasiado; mas eu sei que não, ainda consigo entender o que me é dito e porque razão ouço este imenso grito.
tenho frio, tenho muito frio. Saio num tropeço dum trôpego andar. Passo pelo espelho e alguém do lado de lá olha para mim e sorri; é alguém que eu já conheci, alguém que já esteve aqui comigo, dentro de mim; nunca mais o vi; por onde andará. No entanto, foi simpático, acompanhou-me até à saída; não o vi mais; não havia mais espelhos naquela sala daquele bar.
Abri a porta de par em par. Respirei o ar frio da noite ainda mais quente do que o frio que eu sentia dentro de mim. Olhei o mar que se estendia para lá daquelas escadas que desciam para ele, ele que me esperava depois do abismo; olhei-o e ele riu-se numa risada tremenda que me fez encolher e de novo ver que já nada estava ali a fazer. Preciso de dormir, mas um sono que jamais termine; preciso de dormir e afinal o carro está ainda ali; é aquele preto; tem aros prateados nos faróis mas não tem luz, estão apagados como eu.
A chave está na minha mão e abrir a porta não custa; já nada me assusta porque o frio me tira a percepção da realidade; tenho apenas uma vontade, dormir, deixar-me ir e não saber nem como nem para onde.
tenho frio, tenho muito frio.
indeterminado por quim às 15:01

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5 comentários:
De Eu a 15 de Dezembro de 2003 às 10:50
veste uma camisola!!!
De amok a 9 de Dezembro de 2003 às 01:55
"E rio-me... Rio-me das definições...das sentenças... das certezas...
Rio-me
da perenidade dos sentimentos alheios...do pequenino que é o amar dos
outros... do "teatro" das vidas que perante nós desfilam...Rio-me do
espanto
desajustado de quem não sente o simples... de quem não sente o difícil
da
distância... de quem não sente o quente que o afastamento não esfria...

E tu, dás-me tudo!!!... Dás-me a noção do dispensável da guerra mesmo
quando
a paz é angustiante... dás-me a paz quando a guerra parece
infindável...
dás-me o resguardo de que preciso quando tremo...Dás-me esta calma que
eu
pensei impossível e que é tua e minha porque me ensinaste a
conquistá-la!!"
De unknown a 5 de Dezembro de 2003 às 21:25
Também já vivi isso.
De Ltus a 1 de Dezembro de 2003 às 15:59
Quando tenho frio ... sinto-me só! ... é como se estas estações acordassem a solidão em mim ... e fizeste-me pensar nisto ... pois geralmente só me sinto só quando tenho frio ... é uma relação de causa efeito estranha no seu teor ... descobri agora porque é que fico tão inconsolável quando tenho frio ... que sensação tão desagradável :-((( Beijo grande...
De as1160307 a 29 de Novembro de 2003 às 18:15
Finalmente arranjou um tempinho do seu pouco tempo! Se lhe serve de consolo, muitas vezes me senti assim, e a única forma de sair desse "frio", é centrar a energia em algo que acreditamos, de modo a transformar o "frio em fogo", mesmo sabendo impossível, mas é uma forma de continuar em frente, por vezes não é facil mas consegue-se!

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