Sexta-feira, 19 de Dezembro de 2003

Para me beijar e chorar comigo

"«Hum!...Ele chegou aqui «para me beijar e chorar comigo» como ele próprio se exprimiu tão vilmente; isto é, ele vinha a Petersburgo para me cortar a cabeça, mas imaginava que vinha só «para me beijar e chorar...» E trouxe consigo Lisa. Mas, se eu me tivesse posto a chorar com ele, ele teria podido perdoar-me!...E tudo isto, desde o primeiro encontro, redundou em carantonhas de bêbedo, em gestos grotescos, em cobardes gemidos de mulher ofendida (e os chifres, os chifres de que ele se gabava!) Foi justamente para isso que ele veio bêbedo, para poder fazer extravasar, nem que fosse só em esgares, o que ele tinha na consciência. Não estando bêbedo, não teria podido falar...Como ele gostava desses esgares e dessas bobices! Ah! como ele gostava disso! E que alegria não foi a sua quando um dia conseguiu fazer-se beijar! Mas não sabia ainda como aquilo acabaria: por beijos ou punhaladas? Finalmente acho que o melhor era beijar e matar. Era a solução mais natural. Sim, a vida não ama os monstros e desembaraça-se deles por meio de «soluções naturais». O mais monstruoso dos monstros é o que tem nobres sentimentos. Eu sei isto por experiência própria, Pavel Pavlovitch! A natureza não é uma mãe para os montros, mas uma madrasta. A natureza produz um monstro e, em vez de ter piedade dele, condena-o. E assim deve ser. Os beijos e as lágrimas de perdão já não ficam bem na nossa época mesmo às pessoas honestas: que dizer então de nós, Pavel Pavlovitch?(...) Mas Pavel Pavlovitch não é culpado, absolutamente nada culpado! É um monstro e tudo nele, por conseguinte, tem de ser montruoso, os seus sonhos e os seus desejos! Mas, monstro como é, duvidou do seu sonho, teve necessidade da alta sanção de Veltchaninof, tão respeitado, tão venerado. Era-lhe precisa a aprovação de Veltchaninof, a certeza de Veltchaninof de que esse sonho não era um sonho, mas a própria realidade. Foi precisamente pelo respeito que tinha por mim que me levou lá, porque tinha confiança na nobreza dos meus sentimentos, contando talvez que nos beijaríamos lá, entre as árvores, chorando, ali perto da inocência.
«Sim, este eterno marido devia acabar, um dia ou outro, por se castigar a si próprio uma vez para sempre e, para se castigar, pegou na navalha, sem premeditação é verdade, mas em todo o caso pegou nela!"

//
«O Eterno Marido», Dostoiewsky, Ed. Guimarães Editores


(post escrito pela amora-silvestre)
indeterminado por quim às 17:32

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2 comentários:
De amora_silvestre a 20 de Dezembro de 2003 às 22:09
...neste caso, limitei-me a transcrever de acordo com a tradução da edição de referi...
De curioso a 20 de Dezembro de 2003 às 21:02
È Dostoiewshy ou é Dostoiévski?

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