Sexta-feira, 26 de Dezembro de 2003

Esboço para uma viagem.

Eram extremamente apelativos; estavam ali à minha disposição; em cima da mesinha de cabeceira. Era uma caixinha escura que ela usava para ter à mão os comprimidos que a faziam dormir. Nunca liguei qualquer importância ao valor daquela caixinha e, no entanto, ela continha o passaporte para uma viagem, uma sem retorno. Nunca houvera pensado nisso, excepto naquela noite; uma noite em que ela não estava ali deitada comigo (nunca mais estaria); uma noite em que acabara de chegar de mais um bar e depois de ter ingerido um bom pedaço de álcool para me aquecer a alma tão fria e tão dormente que já nem a sentia. Também, para que queria eu uma alma? Que é que ela me dá ou me faz?
A caixinha preta continuava ali.
Quantos comprimidos teria ela deixado desde a última vez que a encheu depois de os tirar da embalagem de marca do medicamento? A minha mão direita estendeu-se para aquela caixinha preta tão apelativa como tão consoladora pelo imaginário que já me estava a provocar. Não custaria nada e dormiria para sempre; tão bom. Era disso que eu estava a precisar ou seria de mais um pouco de gin? Mas para tomar os comprimidos eu precisava de beber alguma coisa e essa coisa estava também ali à mão; debaixo da cama, talvez também deitada no chão por cima do tapete; teria ainda algum líquido? O suficiente para engolir os comprimidos? Já não tinha forças para me levantar e ir buscar outra garrafa.
A caixinha preta continuava ali e a minha mão já estava em cima dela. Senti aquela textura (penso que era marfim) sob os meus trémulos dedos mas senti-a fria e um arrepio percorreu-me a coluna; ou teria sido outro tipo de arrepio?
Não sei quanto tempo estive com aquela caixinha na mão.
Não sei quanto tempo demorei a tomar uma decisão.
Não sei quanto tempo a olhei com um turvo olhar.
Não sei porque razão não a segurei.
Dei por mim a olhar para ela sem saber para que é que ela servia e naquele momento apenas me apeteceu dormir; tão perto do derradeiro sono; tão desejado; ali tão à mão.
Reparei então que estava deitado sobre o lugar dela com o braço direito estendido para a mesinha de cabeceira segurando a caixinha preta que continha o passaporte para a derradeira viagem; tantas vezes assim estivemos; tantas vezes senti o seu calor, o seu respirar, o seu arfar; tantas vezes assim ficamos depois de fazermos amor. E, neste estúpido momento, repetia aquela posição estendendo a minha mão para uma viagem.
Não consegui conter o choro; não consegui aguentar as lágrimas; não consegui segurar a caixinha preta. Não consegui partir.
Restou-me a certeza que no dia seguinte teria mais uma noite de frio.

indeterminado por quim às 19:18

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10 comentários:
De Lana Lua a 30 de Janeiro de 2004 às 18:21
Saudade, Solidão e Esperança não são, necessariamente, má companhia. Pior está quem vive com a Ilusão, a Ignorância e a Inveja. Sei o que é sentir saudade do desconhecido, descobrir a sorrateira solidão em cada canto da alma e julgar perdida a esperança a cada passo. Mas ainda aqui estou!...
De inde a 30 de Janeiro de 2004 às 18:06
Lanalua: Há muito que vivo com duas Damas terriveis: a Saudade e a Solidão. São muito dificeis de aturar e de se conviver com elas. São tremendamente egoistas e não nos deixam em paz; não fogem, não se retiram. Por isso, resta-me um subterfúgio: tentar enganá-las: rio-me delas e tento fugir para dentro de mim; dentro de mim encontro um mar revolto mas tem ondas, tem cheiro a maresia, tem sol, chuva, vento, frio e calor; tem sal, tem vida, pulsa, sente e toca; e nesse mar revolto procuro uma ilha, uma ilha mesmo deserta onde me possa abandonar e nada mais sentir; olho em volta e continuo a ver esse mesmo mar mas a esperança de ver o nevoeiro dissipar, a esperança de ver que algum barco possa no meu cais aportar, a esperança de que sorrir de novo seja possível, esta, a esperança é a terceira dama com que consigo ainda viver!
De Lana Lua a 30 de Janeiro de 2004 às 17:51
Sem querer juntar achas à fogueira, queria apenas concordar em algo com o Indeterminado. Podemos não saber que existem, podemos nunca os ter visto, mas o que nos mantém e nos sustenta a alma é continuarmos em busca desse aquecedor mítico. Por muito que nos enganemos, temos uma certeza, porém. Que estamos mais perto do que estivemos, antes de nos enganarmos de novo!
De amok a 28 de Dezembro de 2003 às 23:24
...não! Claro q não existem!...só o nosso desejo em acreditar q eles existem os faz existir!,mas...não é (sempre!) assim q acontece com os impossíveis!?...
De indeterminado a 28 de Dezembro de 2003 às 10:32
E, eles existem?
De amok a 27 de Dezembro de 2003 às 22:16
...vais desculpar-me (ou não!, afinal o livre arbítrio existe, né!?) mas eu não acredito que tu acredites em aquecedores de alma!...aliás, mesmo que um deles te estivesse a queimar...tu não acreditarias...
De indeterminado a 27 de Dezembro de 2003 às 16:07
Aquecedores de Almas; interessante pensar que da mesma forma que ela pode enregelar, também pode ser aquecida. É por acreditar nesses aquecedores que ainda aqui estou.
De indeterminado a 27 de Dezembro de 2003 às 16:06
Teres falado ou teres ficado calada não impediria nunca, nem nunca poderia ter impedido que o passado tenha existido. No entanto, é bom exorcisar fantasmas e chorar sobre o leite derramado nunca deu frutos; por isso, não lamentes, pois o texto já havia sido escrito.
De safro a 27 de Dezembro de 2003 às 15:54
Por incrível que pareça, esses passaportes para viagem sem retorno estão sempre ao alcance da nossa mão, contudo é uma viagem arriscada: por um lado, pode não se chegar ao destino desejado; por outro, pode surgir o arrependimento a meio do percurso e, por ser sem retorno, não podemos regressar ao ponto de partida. Ingrata viagem. Mas, como sereia que apela o marinheiro, alicia-nos para esse abismo. Que nos falta? Coragem para seguir? Ou será que somos mais corajosos em ficar? Bem, um 2004 com uma alma mais aquecida;) quando será que inventam os aquecedores de alma? :o
De amok a 26 de Dezembro de 2003 às 21:22
...como em tantas outras vezes...mais me valia ter ficado calada e não ter pedido nada....

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