Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2004

Perdi as palavras.

Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade; não lhe encontro identidade; não sei onde estou. Apenas vou. Saí há pouco de mais um Bar. Que bebi desta vez? Não sei mas também não interessa. O telemóvel continua mudo e nem uma mensagem tem e eu não tenho tempo para escrever; só tenho tempo para esquecer e também penso que já não sei o que dizer. Procuro as palavras mas parece que as perdi.
Perdi as palavras; ando atrás delas; perderam-se no sótão da minha memória e a chave do baú há muito que já lá não mora.
Busco incessantemente as letras para compor palavras mas não as encontro e desisto; mas, desisto de quê? Não sei. Desisto. Também se vive para desistir; não vivemos somente para insistir.
Mas as letras e as palavras são fugidias, escorregadias, lembram momentos que já não encontro; são perdas deixadas (ou deitadas?) ao vento, lamento.
Cruzo-me com as pessoas e sinto-lhes o odor; interessante, mesmo com um pouco mais de álcool, eu consigo sentir o cheiro: sinto os perfumes, a transpiração, um cheiro a urina naquela esquina, o cheiro a fritos que vem daquele restaurante rasca; um pequeno aroma a rosas naquele varandim misturado com o perfume do tabaco.
Ouço também os ruídos: os carros, as motorizadas, as conversas mudas, as tosses, o grito, o berro, a sirene do carro da polícia, a mulher que chama um cliente ali à frente.
Mas somente vejo os meus pés caminhando no piso molhado da última chuva que caiu. O sol fugiu cedo, deitou-se ainda ia o dia a meio; deixou-me só.
Já não sei onde deixei o carro. Mas, para que o procuro se sei de antemão que ainda vou parar num reles lugar para beber mais um gole?
Sinto-me mole. Sem forças e empurro as pernas para que o corpo não fique parado. Está frio neste lado de mim. Não sei como está o tempo desse lado, excepto que de vez em quando algumas gotas de chuva me vão molhando.
Vagueio o meu corpo por entre o cimento da cidade e continuo a não lhe encontrar a sua identidade. Onde estou? Que faço aqui? Para onde vou?
Afinal, quem sou?
Será que ela ainda se lembra do que fui?
indeterminado por quim às 19:05

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19 comentários:
De amora_silvestre a 3 de Fevereiro de 2004 às 21:29
...alguém dizia, por ai algures, q "um homem quando ama"...sofre!...e uma mulher...não???

...não será bem qd se ama, antes qd se ama e não se pode amar...:-(

...um beijo para ti...e obrigada pelo matar de saudades...juntos...;-)
De inde a 3 de Fevereiro de 2004 às 10:37
de Fernando Pessoa; breve, talvez o post aqui.
De inde a 3 de Fevereiro de 2004 às 10:36
Não é preciso avivar a memória dela; ela o soube sempre e ainda sabe. No texto digo que "desisto" apesar de ter dito que nunca iria desistir (nem vou)
De inde a 3 de Fevereiro de 2004 às 10:35
Se ela te matar primeiro? Talvez mas penso que ela não tem medo de aranhas. :)
De inde a 3 de Fevereiro de 2004 às 10:34
A música? Só sei o título "Um homem quando ama"; penso que ou é Caetano Veloso ou Camargo. Escolhi-a exactamente pelo título.
De Beija Flor a 2 de Fevereiro de 2004 às 22:36
to indeterminado: O Amor /

O amor, quando se revela,/
Não se sabe revelar. /
Sabe bem olhar p'ra ela, /
Mas não lhe sabe falar. /
Quem quer dizer o que sente /
Não sabe o que há de dizer. /
Fala: parece que mente /
Cala: parece esquecer //

Ah, mas se ela adivinhasse,/
Se pudesse ouvir o olhar, /
E se um olhar lhe bastasse /
Pr'a saber que a estão a amar! //

Mas quem sente muito, cala; /
Quem quer dizer quanto sente /
Fica sem alma nem fala, /
Fica só, inteiramente! //

Mas se isto puder contar-lhe/
O que não lhe ouso contar, /
Já não terei que falar-lhe /
Porque lhe estou a falar... / de

Fernando Pessoa
De M&M a 2 de Fevereiro de 2004 às 22:06
to indeterminado: e que tal avivar a memória dela!
De aranha a 2 de Fevereiro de 2004 às 22:01
to indeterminado: Quem procuras tu? Talvez possa chegar até ela! Se ela não me matar primeiro!!! lol lol lol :)
De PanteraNegra a 2 de Fevereiro de 2004 às 21:47
to indeterminado: Pois é! A música é muito bonita! Faz-me lembrar o voo de um pássaro! :) Mas ou é de mim, ou é diferente, ou continuação?! da anterior ou é ainda a mesma? :) De quem é? Estou sempre a querer perguntar e esqueco sempre! :)
De inde a 2 de Fevereiro de 2004 às 21:36
Também gosto imenso da música que aqui ouço e vos faço ouvir quando me visitais. Jinhos

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