Terça-feira, 23 de Março de 2004

Mudança

Espalhou a alva espuma sobre a cara húmida; acariciou a face ao fazê-lo, como que num ritual que era obrigado a cumprir. Pegou na lâmina e começou, como de costume, a desfazer a barba a partir do canto inferior esquerdo do pescoço no sentido de baixo para cima. Era uma carícia "azêda" mas que sabia bem. No final, meteu outra vez a cabeça debaixo da água fria e sentiu o gelo refrescar-lhe a ardência facial; pegou no bálsamo e untou a cara e o pescoço; o cheiro não é activo e até é bastante agradável porque para além de refrescar torna a pele macia (naquele momento, claro).
Com uma toalha secou o cabelo esfregando-o fortemente e penteou-se de seguida num ritual também demasiadamente frustrante porque sempre igual; desejava ter outro tipo de penteado mas o raio do cabelo não lho permitia.
Sorriu novamente e mais uma vez piscou um olho a ele mesmo.
Seguiu para o quarto. Despiu as calças de pijama e vestiu-se a rigor para enfrentar o vento norte frio que soprava lá fora.
Eram oito e meia e o sol tinha nascido havia ainda pouco tempo.
Meteu o nariz de fora e aspirou a névoa matinal. Fresca, suave e pura.
Tentou olhar o sol mas logo retirou o olhar.
Meteu-se a caminho.
Sentia uma paz estranha. Parecia a primeira vez que fazia aquilo. Ou seria mesmo a primeira vez?
Caminhou forte no sentido sul para norte, tal como daquela vez em que se meteu à chuva e a sentiu no corpo refrescando-lhe a alma.
Desta vez não sentiu essa necessidade; desta vez a vontade era apenas a de usufruir de uma manhã fria de sol neste inverno que findara e nesta primavera que acabara de começar.
Caminhou apenas com largas e longas passadas até sentir o corpo aquecer e o ar frio começar a encher de calor os seus pulmões.
Respirava fundo e compassadamente.
Ao fim da longa rua a subir, parou.
Encostou-se a um muro e descansou.
Olhou para dentro da sua alma e declaradamente entendeu a mensagem: tinha mudado, pura e simplesmente estava mudado.
Tivera de caminhar noutro sentido.
Iniciara, pois, o novo percurso.
Sentiu-se bem.
Sorriu.
Sentia-se feliz.
indeterminado por quim às 17:45

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20 comentários:
De inde a 24 de Março de 2004 às 17:57
Vanessa: obrigado pela visita. Volta sempre. Eu costumo espreitar o teu. ***
De inde a 24 de Março de 2004 às 17:56
Carla: faz apenas e somente o que quiseres, quando sentires que "queres". ***
De Vanessa a 24 de Março de 2004 às 17:39
Pois é verdade, escrevemos sobre a mesma coisa... talvez porque muitas pessoas precisam de mudar só que não encontram a força para isso... e nós conseguimos!:) E sabe bem!... Beijinhos

Gostei muito do teu blog, vou voltar mais vezes.
De Carla a 24 de Março de 2004 às 16:30
É isso mesmo, é preciso querer. :)
De inde a 24 de Março de 2004 às 15:51
Claro que não! Ahh, se se soubesse! Se o desconhecido fosse conhecido! Se eu soubesse que a mudança me traria mais felicidade, estaría sempre a mudar e sem medo do desconhecido, mas como não o sei, fico quedo e mudo à espera que algo mude para eu mudar em conjunto. A espera nada me traz. E eu vou ficando à espera. Um dia é tarde e eu desesperarei por ter esperado e não ter ido e ter ficado. Não. Não vou ficar nem mais um minuto. Vou mudar sempre que sentir que "quero" mudar. Só conseguirei amar se eu quiser amar; só conseguirei mudar se eu quiser mudar. Muda apenas se sentires que o desejas. ***
De Carla a 24 de Março de 2004 às 15:42
Nada me garante q a mudança me traria mais felicidade, portanto para além da falta de coragem, também há o medo do desconhecido.***
De inde a 24 de Março de 2004 às 15:09
Carla: repara: uma Não mudança pode ser uma mudança, ou seja, a manutenção de um status pode ser uma mudança dentro de nós, a de aceitar que seja assim e não de outra maneira desejando que não o fosse; esta é uma "mudança" terrível porque se vai "arrastar" no tempo e nos vai massacrar sempre com a vontade de "mudar" e nunca seremos capazes; mudar é, na verdade, a "coisa" mais dificil de se levar a efeito; ficar na "rotina" da vida, aceitando tudo, pode ser uma escolha só que nunca saberemos o sabor de outra escolha. E, ainda bem que, mesmo assim, te sentes feliz. :) ***
De Carla a 24 de Março de 2004 às 14:30
Não tenho coragem para mudar. Estão demasiadas variáveis em jogo. Mas compreendo a mensagem que me deixaste. Apesar de tudo, acho que sou feliz. Não podemos ser demasiado exigentes. E temos, também, de pensar nao só na nossa felicidade, mas também na felicidadde daqueles que nos envolvem.
Beijos***
De inde a 24 de Março de 2004 às 11:32
Carla: não encontrei, fora de mim, nenhum novo sol na minha vida; encontrei-o dentro de mim. Isso marca a diferença entre todos os que procuram quando, afinal de contas, temos de procurar, sim, dentro de nós. Somos nós que temos de mudar e não esperar que "algo" nos mude ou nos dê razões para mudarmos. Isso nunca será uma realidade se não a "realizarmos" dentro de nós mesmos. Ninguém nos consegue mudar! Nada nos consegue mudar! Só nós mesmos seremos capazes de mudar. Por isso não esperes por um sinal ou por um sol, para mudares. Pode ser que nunca apareça e ficarás eternamente à espera. O sinal está em nós, é apenas seguir o nosso instinto; o sol está em nós: Nós somos esse sol que tanto queremos; apenas é preciso fazê-lo brilhar de dentro para fora e não esperar que ele, o sol, nos ilumine de fora para dentro. Um :) e um *
De Carla a 24 de Março de 2004 às 11:07
Quem me dera sentir-me assim. Estou numa encruzilhada de várias variáveis. Espero ansiosamente pelo sinal que me fará escolher o caminho a seguir. No entanto, olho sempre a vida alegremente. Preciso é de uma luz, de um sol como o que tu encontraste. Beijos***Carla

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