Sexta-feira, 2 de Abril de 2004

Dualidade

(Comentário postado em www.lobices.blogs.sapo.pt gentilmente cedido por quim)


Cada ser tem dois lados – um feminino e um masculino. Quando a natureza nos determina à nascença o lado visível é para que cresçamos e em liberdade essa natureza evolua até o identificarmos. Essa identificação faz-se olhando nosso lado visível e invisível, assim como o dos outros. Se não nos interiorizarem imagens estereotipadas, preconceituadas, infernizadas por noções de culpa e não nos violentarem ou manipularem dalgum modo nosso ser íntimo, a natureza evoluirá em permanente construção e essa identificação será espontânea, livre e criativa, para partir sem medos em busca do outro e dos outros. Cedo ou tarde encontrará o outro que não quer como seu espelho, mas o lado visível do seu invisível. Se manipulações, cobranças, vaidade (seja ela qual for), forem as faces visíveis e pouco se perceba os invisíveis dos progenitores, cruzam-se as teias, atam-se nós dolorosos, confundem-se nossos dois lados e seguimos a vida à procura de desatar os nós em que nos enlearam, e em tamanhos emaranhados outros se vão enleando. Lobices - gostei deste nome , dos uivos . Também eu já me senti loba. Aqui vai uma reflexão minha que fiz a partir dum texto lindíssimo de José Eduardo Agualusa: . Dentro de mim pensei - uma gansa é um misto de cisne com loba e ela não triunfa sobre Deus , destrói-lhe a imagem , que o homem criou à sua imagem. Depois já vinha no carro de regresso repensei – não – no cisne estão todos os animais. No cisne estão dois gatos selvagens, macho e fêmea, gémeos – irmãos, que se perderam sós afastados um do outro na floresta, dela saíram e sem rumo ficaram até descerem sozinhos um rio e a ela regressam para se aninharem novamente. Estão todas as aves migratórias, e todas as migrações para chegar ao local do fim que foi a origem. No cisne está a cadela que em si viu a loba partes da gata selvagem e o cão que foi lobo partes do gato selvagem. Está a serpente da terra assim como a do mar e todos os animais por elas mordidos ou sufocados. Está o cão que mordeu a gaivota e a gata que comeu a rola, porque todos anseiam voar, e porque em todas as feridas por todos infligidas e sofridas misturaram seus sangues. A gaivota não mais era só gaivota pois também era cão, rola, gata, e a rola não mais era só rola pois também era gata, cão e gaivota, e a gaivota... e a gata... todos partes duma gansa e dum ganso, com todos os vegetais que ingeriram, o ar e a água que beberam, o fogo em que arderam. Gansa e ganso (mãe é mãe, e é filha e avó e todas são mães, e a filha é filha, e é mãe e avó e todas são filhas, e avó é avó, e é mãe e filha, e todas são avós, pai é pai, e é filho e avô, e todos são pais, filho é filho, e é pai e avô e todos são filhos, e avô é avô, e é pai e filho e todos são avôs) que misturando-se ambos no interior um do outro , darão vida ao cisne voador , que nele tem todos os seres e todos os seres o têm. E então mulher é mulher e também é homem e homem é homem e também é mulher. E todos em cada um serão mães, de todas as filhas e filhos e filhas e filhos de todas as mães, e filhas e filhos de todas as mães e de todos os pais,...., e avós de todos os netos e pais, filhos, filhas, avós e avôs..........ih...incalculável... que fervilhar na minha cabeça...combinações sem fim..... porque como diz Agualusa “ nada redime a estupidez excepto o amor” porque “ o amor é a sobre quilha da criação”....como o sentiu Walt Whitman.


(from: Eureka_cruz@sapo.pt)
indeterminado por quim às 18:31

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