Sábado, 22 de Maio de 2004

Subentendimentos

Há uma coisa que é necessário definir: todos nós, quando escrevemos (ou falamos), dizemos coisas reais e dizemos coisas irreais.
Fazemos um misto de retórica vã e não só; colocamos muito de nós e também muito daquilo que vai no nosso imaginário; não só falamos do que sabemos como também falamos do que não sabemos mas, principalmente, falamos com a Alma, com aquilo a que eu chamo de "desejo".
Fala-se do que "desejaríamos" que assim fosse.
Quando não "foi assim" então fala-se do desejo de não ter sido como desejáramos que tivesse sido.
Somos todos duma ambiguidade angustiante (quer se queira admitir isto ou não); mentimos a nós mesmos para nos desculparmos de tudo só que nos esquecemos que não somos culpados de nada.
A ilusão não está em nós mas em tudo o que nos é dado como perceptível, ou seja, o que nos rodeia é que pode ser ilusão; nós não somos uma ilusão.
A ilusão gira à nossa volta e tenta-nos de forma a que se perca a noção do que é a verdade e do que é a mentira; ficamos, então, apenas com o que temos; e o que é que temos? A esperança de estarmos enganados ou de nos termos enganado e de que há ou vai haver solução.
Desesperadamente procuramos resolver esse problema.
Doutras vezes, desistimos e deixamos que tudo "morra" no limbo do esquecimento; no entanto, esse limbo é também ele mesmo uma ilusão pois o esquecimento não é viável; não podemos "cortar" ou "apagar" a memória. E esta é a que nos devora; engole-nos por vezes duma forma assustadora e noutras vezes duma forma mais suave mas não deixa nunca de nos engolir.
Somos como que absorvidos por esse buraco negro que é a lembrança; lembramos tudo, principalmente o bom porque subsconscientemente escondemos num recanto da nossa memório tudo o que foi mau; até porque nunca tivemos a culpa do mal ou do mau acontecido. Somos uns eternos inocentes.
Fazemos assim, ao longo da vida, exorcismos aos nossos demónios em vez de lançarmos louvores aos nossos anjos; passamos uma vida inteira a lamentar o inlamentável em vez de nos alegrarmos com tudo o que não deve ser esquecido. E tudo, tanto o bom como o mau, deve ser contabilizado na nossa passagem por esta dimensão do aqui e agora.
E só há uma forma de se "conviver" nesse estádio de vida: é aceitar o que nos é dado viver; é aceitar o que nos é dado pois nada daquilo que "temos" é nosso; foi-nos concedido passar por isso, foi-nos concedido vivermos nisso, foi-nos concedido vivenciar determinados factos, factos estes que serão única e exclusivamente nossos e de mais ninguém; mais ninguém no universo sente o que eu sinto, mais ninguém no universo sente o que tu sentes.
Somos seres únicos, individuais e totalmente imperfeitos. Vamos a caminho da perfeição mas que tarda em chegar. Vamos ter muito que caminhar ainda até conseguirmos a espiritualidade do ser.
Porém e como ainda somos imperfeitos é-nos "concedida" a capacidade de "chorar".
É por isso que nada nos satisfaz.
É por isso que buscamos a felicidade (quando ela está aqui, dentro de nós).
É por isso que sofremos.
É por sermos ainda imperfeitos que não sabemos (ainda não aprendemos) aceitar.
No que me diz respeito, tento duma forma lenta mas sistemática, tentar aceitar mas, na verdade vos digo, que não é fácil e, por vezes pois, preciso de "gritar" e de usar a tal forma de equilíbrio que me permita lentamente sentir o caminho que piso numa caminhada que sei tenho de fazer, sem olhar para o caminho mas apenas com a vontade enorme e grandiosa de caminhar.
indeterminado por quim às 11:44

link do post | indetermine | favorito
|
16 comentários:
De inde a 24 de Maio de 2004 às 11:11
Não é preciso "buscar" Salatia; é apenas preciso "caminhar". *
De salatia a 23 de Maio de 2004 às 22:32
A busca é essa mesma, a descoberta de que a temos dentro de nós...e podemos nunca a encontrar ou podemos já a ter e nunca perceber...:)
De inde a 23 de Maio de 2004 às 17:33
Mais, LibeLua: caminhar sem reflectir, ou seja, sem interrogar o porquê por haver a certeza de assim ser.
De LibeLua a 23 de Maio de 2004 às 17:13

Cada manhã traz, com a sua frescura nova, um mar de possibilidades. A dor esbate-se, a tristeza dilui-se e respiramos a certeza de estarmos vivos. Saber viver desse néctar simples é a verdadeira essência da vida. Um existencialismo feito das coisas que consiguimos reunir, boas, do nosso dia a dia...

Gostei da reflexão
De inde a 23 de Maio de 2004 às 08:38
Por isso mesmo Cruz, apaziguemo-nos dentro de nós, fora de nós, em nós, nos outros, para nós, para os outros. caminhar é preciso.
De inde a 23 de Maio de 2004 às 08:36
Claro, Ícaro, não existe culpa; não temos culpa de nada.
De inde a 23 de Maio de 2004 às 08:35
Sentindo-a Cruz, não se exclui os outros. Com ela incluimos tudo, até nós mesmo, separados que estamos do nosso "eu". Aqui, falar de paz, é falar de felicidade que está em nós e em mais sítio algum. Se nos sentirmos em paz com nós mesmos em paz estaremos com o mundo e o aceitaremos tal como ele é. Tentar transformar o mundo é outra "caminhada" que não a "nossa" que deve ser efectuada em primeiro lugar.
De inde a 23 de Maio de 2004 às 08:32
Mas é preciso "saber-se" que ela está dentro de nós. É preciso, Salatia, "descobrir" primeiro e acreditar depois.
De cruz a 23 de Maio de 2004 às 01:46
Cabe a cada qual libertar-se dos seus infernos interiores, se se buscar o que de melhor e apaziguante em nós sentimos e nos outros olhamos. Para mim as culpas são o maior impedimento à paz interior. Exorcizá-las é faz de conta.É querer fazer de conta que só fomos magoados e que não magoámos. E é não se olhar o que de bom os outros nos deram porque ficámos centrados no mal com que nos magoaram.E quando olhamos bem lá no fundo do que magoámos sente-se que magoámos não por desejo de o fazer mas por inconsciência das guerras interiores de cada qual.
De caro a 23 de Maio de 2004 às 01:32
A culpa por si só é o sentimento mais inútil que o ser humano inventou para exorcizar o mal que efectivamente causa e, que na maioria das vezes, o faz com a perfeita noção de que o deseja fazer...Culpa...? Invenção, pura e simples, consequentemente, INÚTIL!

Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.Outubro 2006

Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab
1
2
3
4
5
6
7
8
9
10
11
12
13
14
15
17
18
19
20
21
22
23
24
25
26
27
28
29
30
31

.últimas indeterminações

. eu

. floresta

. Saudade

. Aniversário

. Amar como o vento

. Gostoso

. Solidão

. Gostos

. Não sou aquário de signo,...

. pormenor

.torres do tombo

. Outubro 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Novembro 2004

. Outubro 2004

. Setembro 2004

. Agosto 2004

. Julho 2004

. Junho 2004

. Maio 2004

. Abril 2004

. Março 2004

. Fevereiro 2004

. Janeiro 2004

. Dezembro 2003

. Novembro 2003

blogs SAPO

.subscrever feeds